A Frenologia Está Voltando?

Franz-Joseph Gall (1758-1828) foi o expoente máximo da frenologia, uma pseudociência que afirmava que as saliências, ou bossas, do crânio seriam indicativas de um maior desenvolvimento das áreas cerebrais subjacentes; o maior tamanho de certas áreas cerebrais, por sua vez, estaria relacionado a habilidades específicas do indivíduo. Os frenologistas examinavam as saliências dos crânios dos seus clientes e assinavam laudos frenológicos em que sugeriam as principais vocações e habilidades especiais do examinado.
Depois de mais de um século de descrédito, a frenologia parece estar querendo fazer um retorno triunfal, agora não mais com medições do crânio, mas com medições da massa de estruturas cerebrais, com técnicas sofisticadas de ressonância magnética nuclear.
Neurocientistas do University College de Londres, por exemplo, acabam de anunciar resultados que indicam que os poliglotas têm mais substância branca numa área que processa sons no hemisfério cerebral esquerdo, o giro de Heschl.
O experimento envolveu falantes nativos do francês, numa tarefa na qual teriam que distinguir o "d" da sua própria língua do "d" pronunciado de modo diferente em Hindi. As diferenças estavam nos primeiros milisegundos das sílabas. Foi testada a velocidade com que os participantes processavam essa informação. Os participantes que identificavam mais de 80% dos sons corretamente foram testados, então, com outros sons acusticamente semelhantes.
Alguns dos mais rápidos nesse aprendizado conseguiam distinguir os sons dentro de poucos minutos, enquanto os mais lentos ainda tinham um desempenho medíocre após 20 minutos de treinamento.
De acordo com os autores do estudo, indivíduos que aprendiam rápido tinham "mais substância branca nas regiões parietais, especialmente a esquerda."
Eles concluem que essas diferenças morfológicas pré-existentes podem prever que o aprendizado será mais fácil para certos indivíduos (com mais substância branca nas regiões parietais), sem entretanto significar que outros, menos aquinhoados, seriam limitados por isso:
...morphology may in part explain how behavior is shaped across individuals due to preexisting differences in the amount of effort required to perform a task successfully, but such morphological differences do not determine behavioral limitations.
Um pouco contraditório, não?
Realmente me parece que a frenologia está querendo voltar...
Link para o trabalho completo de Golestani et al. na revista Neuron (PDF)